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A revista semanal britânica “The Economist” publicou hoje uma entrevista com o analista político americano Ben Shapiro, um dos prodígios do pensamento conservador americano. Digo “analista político” porque é, compreensivelmente, a função social de Shapiro mais proeminente numa situação de biografia ligeira de orelha de livro ou de descrição desleixada do jornalismo moderno, mas o americano judeu é escritor, jornalista, debatedor, cientista político, advogado, radialista, etc.

No título e lide, a matéria classifica Ben Shapiro “ídolo pop” e “guru da alt-right. Qualquer internauta minimamente versado – ou melhor, mesmo que pobremente informado, tendo esbarrado em dois ou três vídeos de youtube sobre ele – saberia que a alt-right tem ódio abrasivo de Shapiro, e os ataques recíprocos acontecem em rotina ritualística.

Falaremos mais sobre isso no futuro, mas a alt-right é uma espécie de movimento nacionalista radical, chegando a prezar até mesmo pela pureza de raça, que ergue bandeiras de supremacismo branco também, enfim. É um grupelho minúsculo, ínfimo, de relevância política e social praticamente nula. Tem muito, mas muito mais volume na cabeça de jornalistas progressistas (com o perdão da redundância) do que de cabeças físicas mesmo. Eu possivelmente terei mais filhos no final da vida do que a alt-right terá de membros reais. É aquele tipo de espantalho da opinião pública pra vestir os contraditórios, e que sempre parece ter estatura muito maior que a factual, caso análogo ao assombro dado a uma suposto séquito legionário de “terraplanistas” – tudo, claro, ficção.

Qualquer expoente mais conservador, ou ao menos delicadamente crítico de dogmas progressistas, recebe de pronto a bênção do título de “alt-right“. Aconteceu com Jordan Peterson não só em veículos de língua inglesa, mas também aqui no Brasil.

Em alguns, a categorização gera só um eye-roll de leve, porque já é procedimento comum. Mas no caso de Ben Shapiro é escandaloso, digno mesmo de processo por calúnia, porque o material de ataques da alt-right (e e vice-versa) é vasto, de acesso fácil a qualquer alma dócil que se disponha a digitar os dois termos no Google. Ainda mais agravante porque o The Economist se propõe a desvendar para o leitor a mente de Ben Shapiro, best-seller do momento com o livro The Right Side of the Story (O Lado Direito da História, em tradução livre), ocasião da matéria.

O procedimento é o mesmo, replicado tantas vezes em “análises” de personalidades perpendiculares ao pensamento da cartilha jornalística. Olavo de Carvalho é talvez o exemplo mais simétrico que temos aqui, e a utilização do termo “guru” colado em Shapiro não é mera coincidência. O brazillian way of jornalismo tem gêmeos e musos. The Economist é um deles.

E inspira o nosso método de fake news, que tem como pai fundador a imprensa de língua inglesa – mais puramente a americana, é verdade. Em termos simples: diga uma mentira sobre o seu antagonista, não se envergonhe de dar barrigada ou de estar falando o falso notório, e invista nela com placidez.

ATUALIZAÇÃO (19:00)

A editoria do “The Economist” alterou o título da matéria e removeu menções ao alt-right. Diz a nota do editor (imagem abaixo):

“Este artigo foi alterado. Uma versão anterior descreveu o Sr. Shapiro como um ‘guru da alt-right’ e um ‘ídolo pop da alt-right’. Na verdade, ele tem criticado fortemente o movimento alt-right. Pedimos desculpas.”

Reprodução da matéria do "The Economist"
Reprodução da matéria do “The Economist”

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