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Minha geração passou a vida como discente da imprensa no curso intensivo de moralidade. São anos empenhados na orientação das mais diversas especialidades da área. Nudez não é pornografia nem ofensa, ainda que seja agressiva à sua crença, ou promova pedofilia de modo ativo ou passivo. Esse cânone da arte moderna contempla com lauto escrutínio uma gama de paradigmas.

Jorrar sangue numa imagem de Jesus Cristo enquanto se transmite filme com cenas de sexo homossexual explícito num telão sem negligenciar a norma de se estar seminu em local público custeado com dinheiro público, expor quadros de contraversão dos objetos de fé alheia, perverter os últimos momentos da vida do representante máximo da fé cristã durante o maior evento de Carnaval do mundo, representações gráficas de pedofilia, peças de apreciação coletiva do ânus próximo ou mesmo interação física estimulada de crianças do sexo feminino com o corpo nu de um homem adulto estranho: tudo é referendado pelo códex de políticas, culturas e saberes e procederes da instituição imprensa, digno de reconhecimento cum laude se em nome do chamado “causar choque”. Rebelar-se mesmo que interiormente contra o absoluto dos preceitos configura falso moralismo anacrônico, dogmatismo de hipocrisia religiosa que se escandaliza irracionalmente diante de nudez ou expressão artística, e o infeliz deve ser instado à penitência pública.

Como quebrar essa tábua de mandamentos? Simples: muda-se o agente.

Foram pelo menos dois anos de manifestações de rua pedindo objetivamente a deposição da presidente da República entre 2014 e 2016, e só apenas nos instantes derradeiros do processo de revolta popular a imprensa dobrou-se a reconhecer que o que os milhões de gritos de “Fora Dilma” pediam mesmo era um impeachment, não se tratando apenas de reclamações “contra o governo”, golpe conjurado por brancos abastados. A réplica adiantada desse corolário concessório foi mais um punhado de orientações morais, como a de que não se deve desrespeitar um presidente com gestos e palavras obscenas, represália aos torcedores em jogos da Copa do Mundo que ousaram xingamentos.

Passam-se alguns meses, assistimos a celebração midiática de uma vitória no Carnaval, sob bandeiras de “vai tomar no cu” contra o ocupante do mesmo cargo, que, ai, não passa de “o carai”. O mesmo presidente, falando à maior parcela da população, comete a estultice de expor em seu Twitter pessoal uma performance de nudez, carícia anal e micção em terceiros. O objetivo aparente: causar choque com a mostra de uma peça presente nestes mesmos carnavais.

Os primeiríssimos furibundos contra o presidente: a mesma classe jornalista. O discurso: “pornografia”, “imoralidade”, “nudez”, “sexo explícito”, “quebra de decoro”, “ataque às crianças que se deparam com essas imagens”. Bastaram uma meia dúzia de tuítes de uns qualqueruns e aqueles meses de cautela da jurisprudência jornalística se encurtaram: já cabe falar em “impeachment”, a internet pede clamorosa, o Brasil está revoltado.

Veja: especialistas são consultados seriamente para que um presidente com dois meses de mandato – boa parte destes em uma cama de hospital após atentado – seja afrontado com a possibilidade de ser deposto por conta de um tuíte com um vídeo de uma (até então) manifestação artística em prol da liberdade sexual.

A extrema-imprensa ultramidiatíca não “vai acabar”: ela precisa acabar. É condição de salvação da vida humana em sociedade. O altar da pura e simples ideologia psicopata, caiada de moralismo, precisa ser quebrado, em nome de tudo o que é bom.

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